Se eu não posso me culpar, o que fazer? Arrependa-se!

Atualizado: Abr 7


Atire a primeira pedra aquele que nunca errou. Calma, calma! Não vamos falar sobre religião. Mas é sobre como a ideia de pecado capital pode ajudar e muito você a se sentir culpado. Vou continuar usando o livro Overcoming Guilty, de Windy Dryden. Você lembra dos 7 pecados capitais? Eu não lembro... mesmo... me perdoem por isso. O fato é que se você é humano e mantém crenças não humanas, quase divinas, dificilmente você vai passar por essa vida sem sentir culpa. O que é um problema...

Antes de começar, vou te pedir um favor: Pensa naquela pessoa que você conhece que você super admira, que parece ser perfeita, ter uma vida perfeita, sem sequer cogitar a possibilidade de ela cometer algum erro nessa e em todas as encarnações que ela tiver. Você tem a possibilidade de passar a vida inteira dela junto a ela, pra garantir que ela nunca erra? A culpa por definição (como vimos no outro vídeo) tem um componente muito rígido ligado à moralidade. E felizmente ou infelizmente, a única pessoa que você consegue conviver durante toda a sua vida adivinha... é você! Já viu, ne? Não satisfeito de ser o ator principal, você assume também o papel de crítico de julgador da sua vida. A ideia do pecado é algo delicado, mas de qualquer forma, é algo que fere a moralidade, é algo que é recriminado, algo que deve ser punido. A grande questão é que até as religiões que têm esta crença, geralmente entende o pecado como um comportamento falho, e não como você sendo um erro. Deus condena o pecado mas não condena o pecador. Se o perdão divino existe, é só ir e não pecar mais! Vale lembrar que pra TREC exigir que você não erre nunca mais na sua vida é algo ilógico, é uma crença irracional. Só podemos pensar assim depois que você morrer, mas realmente acho bem difícil que alguém passe uma vida sem errar. Até lá, é genuíno que você se esforce para não cometer mais falhas. Isso é um exemplo de auto-aceitação incondicional. Na culpa, há auto-depreciação global. Se eu errar, significa que eu sou uma pessoa ruim. Se de fato eu for uma pessoa ruim, não há nada nesse mundo, nem mesmo o perdão de outra pessoa, que vá me tornar uma pessoa não-ruim. Sabemos que muitos transtornos mentais podem apresentar como sintoma a culpa. Transtornos depressivos, transtornos de ansiedade, transtornos obsessivo-compulsivos, transtornos de personalidades. Abrir mão de sentir culpa, de se culpar por coisas além da sua responsabilidade, não vai te fazer alguém ruim, nem irresponsável. Por que mesmo diante de um erro, você se arrependerá de te-lo cometido e vai seguir sua vida refletindo, agindo de acordo com seus valores e se importando com as pessoas que você gosta. Quando isso aconteer, significa apenas que você estará reconhecendo sua condição humana, cujo valor é imutável, mesmo sendo falho. Você assume responsabilidades sobre situações que não são falhas suas? Você se culpa por coisas que você fez erradas no passado? Voce gostaria que você pudesse parar de sentir culpa e retomar sua vida? Se você respondeu sim para alguma dessas perguntas, você é uma das milhares de pessoas que não sabem ainda lidar com a culpa. Mas afinal, o que é a culpa na perspectiva da TREC? É uma emoção negativa não saudável, que sentimos quando: Você interpreta que alguma ação que você teve magoou alguém que você gosta, quebrando seus valores éticos e morais. Você foca na consequência dos seus atos ou no fato de que você agiu errado. Nesse caso você considera que por conta das consequências dos seus atos, você magoou alguém. Esses dois primeiros casos ilustram o que conhecemos como culpa episódica. Houve um fato específico relacionado à culpa. O terceiro tipo de culpa é a culpa existencial. Você tem algumas crenças dogmáticas específicas relacionadas a você, focada em quem você é, não importa o que você fez ou deixou de fazer na vida. Esse ultimo tipo é mais duradouro e não está limitado nem relacionado a nenhum episódio em particular. Consegue pensar alguma situação que você sentiu culpa? É possível que se encaixe num desses 3 tópicos. E o que fazer? Eu errei mesmo. Tenho que me culpar. Primeiro vamos relembrar que pra toda emoção negativa não saudável, existe uma emoção negativa saudável. No caso da culpa, essa emoção alternativa é o arrependimento. Peraí? Mas eu sempre ouvi que é errado se arrepender. Que é melhor sofrer por ter feito, do que se arrepender de não ter tentado. Frases assim são muito comuns. Mas o fato é: carregar a culpa também não é um solução saudável. Ficar parado na culpa, não te ajuda em nada. A culpa é uma emoção que nos leva a ter pensamentos recorrentes de auto-culpabilização, pesamentos ilógicos de que podemos consertar o estrago do passado, comportamentos quase compulsivos de pedir desculpas mesmo quando a outra pessoa já te perdoou, leva a comportamentos de auto-punição ou de sacrifícios exagerados para compensar o erro. Ou seja, não traz nada de bom pra vc. Concorda? O arrependimento proposto pela TREC é um pouco diferente. Tanto a culpa quanto o arrependimento, existe o reconhecimento de que houve sim um erro no passado. Só que o arrependimento, além do reconhecimento do erro, engloba a aceitação de que você é um ser humano falível e que por mais que se esforce para evitar, pode ser que um dia você venha a cometer alguma falta, leve ou grave, mas algo que vá contra seu próprio código de moral. A culpa não te ajuda a enxergar possibilidades no futuro de aceitar o erro e talvez minimizar. Ela vai te prender no passado e/ou gerar cada vez mais uma auto-avaliação depreciativa sobre você. Pensando dessa forma, será que não seria melhor assumir o erro e se arrepender? Você ainda tem uma vida inteira pela frente para se comprometer a tentar fazer o que acha correto, aceitando o simples fato de que humanos erram. Gostou desse artigo?

Texto desenvolvido por Márcia Verônica de Paiva Machado, Psicóloga formada pela PUC-Rio (CRP 05/35863).

Terapeuta Certificada pelo Instituto Albert Ellis em Terapia Racional-Emotiva Comportamental.

Atende em consultório particular, com sessões baseadas em Terapia Racional-Emotiva Comportamental.

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